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ENTRE O SOM E A ESCRITA


Foi através da música cantada por Maria Bethânia que conheci o maior poeta da língua portuguesa: Fernando Pessoa. Assim como Pessoa, que tinha vários escritores dentro dele, os heterônimos, acho que também tenho várias versões de mim. Até hoje fico encantada quando leio seus versos melancólicos e a sua busca pela intensidade. A obra de Fernando Pessoa exerce um impacto significativo em minha vida. Em alguns determinados momentos, chego a pensar que sou eu quem deveria ter escrito aqueles versos. 

A voz de Bethânia foi referência também que me permitiu conhecer outros escritores brasileiros como Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Cecília Meirelles, entre outros. Para mim, a escrita e a música estão entrelaçadas: uma não se separa da outra.

De Guimarães Rosa herdei a paixão por inventar novas palavras, misturando termos, idiomas e sons. Qual escritor não gosta de inventar neologismos? O escritor mineiro tornou o sertão brasileiro um lugar mítico e épico tanto quanto Homero fez com a mitologia grega.

Já Clarice Lispector assinava colunas semanais em jornais e atuava como jornalista. Ela trabalhou como redatora e repórter na Agência Nacional e para a famosa Revista Manchete, onde entrevistou grandes personalidades, utilizando seu estilo confessional e humano. Ela descrevia a necessidade de escrever como uma maldição que salva. Ela usava muito bem o jogo das palavras.

Assim era também Carlos Drummond de Andrade, que escrevia o cotidiano em suas crônicas publicadas semanalmente no Jornal do Brasil. Seu estilo era simples, direto e, ao mesmo tempo, tão refinado, cheio de lirismo e profundidade. Drummond sabia falar da vida comum de maneira poética.

Na verdade, não me comparo a Drummond, a Rosa, a Pessoa ou a qualquer outro escritor. Confesso que continuo sendo influenciada por eles, mas meus escritos são apenas desabafos e nem considero literatura.

No entanto, acredito que quem gosta de escrever ainda recebe a influência destes escritores que viveram em séculos passados. De certa forma, todos os jovens escritores, e mesmo aqueles que apenas pensam em iniciar-se na escrita, são herdeiros daqueles que os precederam. Talvez por isso amemos tanto Machado de Assis, que, apesar da sua linguagem tão século XIX, a sua escrita permanece tão atual e influente. Enfim, um escritor é sempre a semente que irá germinar uma futura geração literária.

 

ANA GUEDES

01.05.2026


 
 
 

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