amor tem que ser recíproco
Atualizado: 16 de out.
Uma vez amei tanto uma flor que compreendi que a maior prova de afeto não era segurá-la entre minhas mãos, mas permitir que ela continuasse existindo longe de mim.
Amar, muitas vezes, não é insistir na permanência, mas respeitar o momento em que é preciso partir. Nem tudo aquilo que toca profundamente a nossa vida foi feito para permanecer nela para sempre. Há ciclos que terminam não porque deram errado, mas porque cumpriram exatamente o que deveriam cumprir. O tempo não diminui a importância de algo; às vezes, é justamente a brevidade que o torna inesquecível. Uma conversa, um abraço, uma amizade ou um amor: todos podem ter profundidade, mesmo sem serem permanentes. Acredito que amar é escolher. Quando você não escolhe, não há amor. Isso é covardia.
Quando você percebe que nunca será a escolha de alguém, não pode mais esperar pela decisão do outro. Você mesma tem que decidir ir embora — mesmo amando, mesmo querendo ficar, mesmo sofrendo. E essa decisão é extremamente difícil. Não adianta o outro lhe dizer: 'Vamos ser amigos'. Você só vai se machucar. Nesse caso, não existe possibilidade de amizade.
Cada dia que passa sem contato afasta você da pessoa que achava que conhecia. No início, a saudade aperta. Você repassa as memórias, se apega aos bons momentos e se pergunta se ela também sente a sua falta. Mas, à medida que os dias correm, o apego emocional começa a se desfazer e a clareza ganha espaço. Você percebe que parte do que estava lamentando não era quem ela realmente era, mas quem você acreditava que ela poderia ser.
Você se apaixonou pelo potencial dela, pelas promessas feitas e pela versão que esperava que um dia se tornasse real. A parte mais difícil de desapegar é aceitar que a pessoa da sua imaginação talvez nunca tenha existido além das suas próprias esperanças. O "contato zero" não serve apenas para seguir em frente; ele ajuda você a separar a pessoa que realmente conheceu daquela que você queria que ela fosse.
Todo mundo diz que as relações precisam ser sadias, mas não existirá uma relação sadia enquanto um estiver se ferindo e o outro estiver prendendo você apenas porque gosta da forma como é tratado — um afeto que ele não recebe de quase ninguém. Isso é errado. O amor não é uma via de mão única; são duas vias.
Se um relacionamento se tornar unilateral, você não ouvirá mais falar de mim. Eu acredito em esforço mútuo, interesse genuíno e conexões onde ambas as pessoas escolhem se apresentar. Não estou interessado em ficar estendendo a mão o tempo todo, carregar conversas ou tentar manter um relacionamento com alguém que parece perfeitamente confortável em me deixar fazer todo o trabalho. Não vou implorar por atenção, forçar uma conexão ou ficar lembrando alguém de que eu existo. Se eu perceber que sou o único tentando, eu me afastarei silenciosamente e deixarei o relacionamento ser o que é. Não por despeito, mas porque eu entendo que conexões genuínas não podem ser sustentadas por uma pessoa só.
O amor tem que ser recíproco. Sabe quanto tempo demorei para aprender isso? Demorei 60 anos. Mas aprendi.
Hoje, questiono por que Deus fez aquela pessoa retornar à minha vida. Foi justamente para eu aprender essa lição e desconstruir a imagem que havia criado dela. Eu a coloquei em um altar, mas ela não era nada daquilo. Muito pelo contrário. Quando amamos, não enxergamos.
Até que tomei um choque de realidade em um sábado de agosto de 2025, que me fez acordar. Decidi acabar com tudo aquilo, com aquele show de horrores que eu escolhi viver, com aquela ilusão. Comecei a mudar a minha vida ali. Não foi fácil. Foi muito doloroso. Mas era a atitude que precisava ser tomada. Escolhi o silêncio. Fui eu quem decidiu partir e sou eu quem assume essa decisão até hoje, sem qualquer arrependimento.
ANA GUEDES
Salvador, 26.09.2026



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