top of page

CASTELO DE AREIA



Deu sete horas no relógio da sala e o barulho ecoou pela casa inteira. Estava tudo limpo, tudo no lugar, mas parecia um museu: só silêncio e aquela educação forçada de sempre.

Eu e Clarisse estávamos casados há uma década. Nas paredes, éramos o retrato do sucesso: jantares sociais, fotos em porta-retratos de prata e a convivência pacífica de dois estranhos que se tornaram bons companheiros de quarto.

Não havia brigas. Apenas uma educação de fachada, em que o "boa noite" era protocolar e os toques acidentais no corredor. Eu achava que aquele marasmo era o normal de quem está junto há muito tempo. Nós éramos o verdadeiro “casal margarina”, aquele que mostrava, aparentemente e de forma ilusória, felicidades.

Até que conheci Marina, em um café em dia chuvoso no centro. Deu aquele frio no estômago que eu nem lembrava mais como era. Olhei para Marina e enxerguei o sujeito que eu era antes de virar esse cara comportado e focado só em patrimônio.

Marina não tinha a posição social de Clarisse, nem ostentava joias. Mas ela tinha um riso que parecia desarmar todas as minhas defesas. Marina era uma pessoa simples, autêntica e acolhedora.

Quando voltei para casa naquela noite, o brilho do lustre da sala parecia, pela primeira vez, artificial e ofuscante. Olhei para Clarisse, sentada no sofá com um livro, e percebi a tragédia da minha vida: estava traindo a própria felicidade para manter um casamento falido.

Fechei os olhos e vi o sorriso de Marina. O peito apertou. Era uma dor viva, pulsante, que me lembrava que eu ainda estava ali dentro, em algum lugar. Mas sou um homem racional. Aprendi cedo que paixões são passageiras, enquanto o patrimônio é o teto que protege.

É apenas química, sussurrei, tentando racionalizar o que sentia. Um desvio de percurso. Tinha decidido ficar com Clarisse, porque ela era um "ativo" valioso e a nossa convivência trazia benefícios mútuos.

Decidi aplicar a Marina a mesma frieza que usava em meus negócios. Comecei a policiar meus próprios pensamentos. Quando a lembrança do perfume dela invadia meu dia, focava em um relatório. Se o celular vibrava, esperava horas para olhar. O silêncio foi cavando um fosso entre nós.

O dilema, porém, me corroía por dentro. À noite, deitado ao lado de Clarisse, sentia a solidão de dois corpos que não se comunicavam, mas se respeitavam pelo contrato assinado. Eu estava traindo o próprio coração, matando o que havia de mais autêntico em mim para não desmoronar o meu castelo de areia.

Escolhi o conforto do conhecido em vez da incerteza da felicidade. Tranquei o sentimento por Marina, acreditando que o tempo se encarregaria de transformá-lo em poeira. O homem de sucesso estava intacto para o mundo. No entanto, eu estava me tornando uma sombra silenciosa vagando pela própria casa.

O dia em que disse adeus a Marina não teve gritos ou promessas de reencontro. Foi um término gelado, direto ao ponto e sem drama. Olhei nos olhos dela e vi um futuro vibrante, mas, ao desviar o olhar para o Rolex no pulso, vi o que me recusava a abandonar.

Escolhi o sacrifício. Não pela esposa, nem pelo casamento, mas pela minha própria vaidade e ego. Eu não posso perder o que levei uma vida para construir.

Marina partiu, e eu voltei para o meu castelo de areia. Agora, vivo em silêncio absoluto, uma autoanálise constante que me acompanha desde o café da manhã até as reuniões de diretoria. Resolvi que minhas emoções seriam congeladas. Meu foco voltou-se para a expansão do patrimônio e para a manutenção da posição que me mantém no topo da pirâmide social.

Nas festas beneficentes, ainda sou o marido exemplar. Sorrio para as câmeras, seguro a mão de Clarisse com a firmeza de quem segura um troféu e minha influência. Mas, quando as luzes se apagam e fico sozinho com meus pensamentos, o peso da escolha me sufoca.

Sinto a tristeza como uma sombra persistente e a solidão como o preço da minha conveniência. Sei que estou cercado de luxo, mas me sinto um morto-vivo. Parece que quanto mais ganhava na vida, mais me perdia de mim mesmo.

Eu queria acreditar que o conforto bastava para ignorar o vazio aqui dentro. Mas a verdade é que construí um império de fachada.


ANA GUEDES

02.04.2026


O texto é uma homenagem para aquelas pessoas que confundem possuir com ser. É uma tentativa de mostrar alguém que venceu na vida, mas faliu como indivíduo.

 

 


 
 
 

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


© 2018,ACG747TOP,Desenvolvido por onim Comunicação-Mara Wanderer. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W
bottom of page