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Frankenstein e a Matrix Social


Gatilhos emocionais dispararam ao ver o filme Frankenstein pela segunda vez, numa manhã chuvosa na capital baiana. Assisti a este filme pela primeira vez após chegar de um show de Maria Bethânia, mas agora, nesta segunda vez, sinto uma emoção que me faz chorar muito.

 

As lágrimas caem de forma descontrolada. É como se fosse uma catarse para mim. Elas estão purificando e limpando a minha alma. Meu coração está doendo, partido. Mas, ao mesmo tempo, as lágrimas estão me curando de velhas dores que me consumiram por longos anos. Dores frustrantes, mas agora vejo um novo caminho e estou seguindo em frente...

 

Na verdade, o filme Frankenstein mostra amor, esperança, arrependimento, violência desmedida, rejeição, dor, raiva e ódio, mas retrata também muita vida e como devemos nos comportar diante da crueldade do mundo.


A obra cinematográfica mostra que todos nós temos um pouco de monstro e de médico; mostra que o monstro vive dentro de cada ser humano, podendo ser contido ou vivenciado. Isso depende apenas das nossas escolhas.

 

Para mim, o filme mostra também como é perigoso o ser humano tentar se igualar a Deus, porque apenas monstros brincam de ser Deus. Aponta ainda o perigo de agir por impulso. Nossas atitudes, ou a falta delas, geram consequências.


Existem pessoas que amam, mas não demonstram; escondem o sentimento por medo, por não quererem se tornar vulneráveis ou por vários outros motivos. A atitude de silenciar ou a mentira acaba com qualquer sentimento, até o amor verdadeiro.

 

O ser humano precisa ter responsabilidade, porque cada ato, sem pensar nas consequências, altera o amanhã. Como diz o provérbio: "O plantio é livre, mas a colheita é obrigatória." Portanto, tudo o que cada um de nós faz ou deixa de fazer, seja bom ou ruim, traz um retorno.


Até Victor, que estava tão obcecado em vencer a morte, confessa, em um determinado momento do filme, que nunca pensou no que viria depois da criação. Ele rejeitou a criatura por ser diferente. O abandono de Victor é uma crítica à falta de cuidado maternal e paternal tão presente na nossa sociedade e, no filme, a criatura se torna violenta justamente após ser rejeitada pelo seu criador.

 

Finalmente, no leito de morte, Victor se arrepende e fala que o remorso de ser Pai ausente o consumiu. Mas já era tarde demais, porque a morte se aproximava. O arrependimento muitas vezes chega tarde, como chegou para ele.


Apesar de todo o sofrimento e de toda a rejeição de seu criador, a criatura perdoou Victor. Em seus últimos suspiros, Victor passa uma mensagem de esperança ao dizer à criatura que, enquanto houver vida, ela deveria viver.


A mensagem, através dos personagens, é que todos nós precisamos uns dos outros. Victor se torna obcecado por vencer a morte após perder a mãe, acreditando que, se a vencesse, nunca mais perderia uma pessoa querida.


Tanto o criador como a criatura eram seres rejeitados e abandonados pelo pai. Os dois eram seres solitários, mas enquanto Victor agia de forma desumana, a criatura era sensível e amorosa.

 

A própria criatura também se sente muito rejeitada pelos homens. Ela só descobre a amizade e o acolhimento por meio de um velho cego, que transforma a sua vida por meio da leitura, do afeto e da compreensão. As cenas da criatura com seu amigo cego são uma lição de vida.

 

O filme mostra que o homem cego não era um ser perfeito, pois ele também cometeu erros no passado. Ele confessa à criatura que a sua realidade atual era consequência do que fizera: o velho havia matado um homem bom no passado e estava muito arrependido. Por isso, ele aceitou a criatura ao perceber a beleza de sua alma.

 

A criatura compreende o valor de uma amizade verdadeira e procura Victor para que ele crie uma companheira igual a ela, após a morte do amigo cego. Victor recusa-se a fazê-lo, com medo de que as duas criaturas procriem. Vitor nunca tinha percebido a pureza da criatura, devido ao seu lado egoísta e controlador. A criatura só queria uma companhia porque, apesar do homem ser um ser social, vive solitário, na maioria das vezes, mesmo estando rodeado de gente.

 

O filme, assim como o romance, também questiona o papel da mulher. Elizabeth era uma mulher à frente do seu tempo (o filme se passa no século XVI) e não se encaixava naquela sociedade machista e preconceituosa. Será que isso mudou? Apesar dos pequenos avanços e da luta da mulher para ter espaço, a Matrix quer nos impor limites ou até retrocessos através da religião, sem falar no feminicídio que continua crescendo.

 

Mas voltando ao filme: Elizabeth era uma cientista. Naquela época, a mulher deveria ser do lar e obedecer ao marido, mas ela não se moldava a isso. Ela procurava a bondade no mundo. Pensou ter encontrado a sua outra metade em Victor, um cientista como ela, mas se decepcionou com o egocentrismo dele. Ela só descobriu a afetuosidade e a conexão verdadeira na criatura, que era pura. Por isso, pede à criatura que fique com ela no momento de sua morte.

 

O filme transmite a mensagem de cultivar o amor e a empatia, mas também expõe os sentimentos de rejeição, ódio, raiva e preconceito. Mostra muita esperança e muita vida. Uma vida que devemos viver independentemente das dores que sentimos, seguindo sempre em frente. Devemos manter nossa essência neste mundo onde a Matrix nos obriga a ser iguais e a seguir padrões. Precisamos ser e nos manter autênticos.

 

Ser diferente não é ruim; ser diferente é algo maravilhoso. Essa é a mensagem da criatura que, mesmo tendo sido tão rejeitada e sofrendo pela perda de seu criador. O filme mostra que ela não perdeu sua essência. Isso fica claro quando agradece ao capitão por sair intacta daquele navio, onde os outros tripulantes queriam matá-la por não a compreenderem. A criatura liberta o navio do gelo para que todos voltem para casa.

 

A imagem da criatura diante do sol, naquela imensidão gelada, mostra que, apesar de seu futuro solitário, ela buscaria viver e ser feliz. O filme termina com a citação de Lord Byron: mesmo com o coração partido, nós devemos viver.

 

Ufa! É um filme que mostra que tudo depende de nós. Sermos Victor (o verdadeiro monstro) ou sermos a criatura e mantermos a nossa essência, permanecendo diferentes do que a sociedade nos impõe. Depende unicamente das nossas escolhas.

 

ANA GUEDES

SALVADOR, 30 DE MAIO DE 2026

 

"E assim o coração há de se partir, mas, partido, ainda viverá" do poeta Lord Byron.

 



 
 
 

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