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O TEMPO VAI APAGAR


Após três meses do dia em que ele me deixou, eu ainda estava sofrendo por causa dele. Eu disse à minha terapeuta: 'Sinto que há uma conexão espiritual entre nós.' Ela ficou em silêncio por um momento e me disse algo impossível de esquecer: você não estava com saudades dele... Você estava com saudades da versão dele que, na verdade, nunca existiu.

O sentimento era real. A dor era real. Às 2 da manhã, eu olhava o nome dele no meu celular e sentia saudade dele de um jeito que eu realmente sentia no meu corpo. Eu me convencia de que era destino. E que ninguém nunca tinha me feito sentir o que ele me fez sentir. E talvez a gente só precisasse de tempo.

A coisa que eu não estava pronta para admitir naquela época: que toda essa dor não era por causa da pessoa que ele realmente era. Porque a coisa pela qual eu estava triste não era ele. Era o parceiro carinhoso e seguro que eu desejava que ele se tornasse. A versão dele que criei na minha cabeça. O futuro pelo qual eu já tinha começado a planejar. E o "nós" no qual investi meus sentimentos, mesmo vendo suas ações toda vez me dizerem algo diferente. Eu não estava chorando por uma pessoa. Eu estava chorando por uma fantasia que vinha construindo em silêncio dentro de mim há anos.

Meu sistema nervoso não sabia a diferença. Estava acostumado a isso e programado para isso. Cada mensagem. Cada áudio. E cada vez que ele voltava após sumir. Anos de instabilidade ensinaram ao meu corpo que a atenção dele era segurança. Então, quando ele se foi - mesmo após me mostrar que eu não significava nada para ele - meu corpo continuou gritando, sentindo falta dele. Não, porque ele era a pessoa certa para mim. Mas, porque ele era familiar. E, às vezes, o que é familiar faz você sentir que é lar... Mesmo que esse lar nunca tenha sido seguro desde o início.

O dia em que tudo mudou para mim: percebi que não era dele de quem eu estava sentindo falta. Eu estava sentindo falta da sensação de paz e estabilidade. Do fim, claro que ele nunca me deu. Da segurança que eu nunca tive. E da versão de mim que se sentia finalmente escolhida... Se ao menos ele me escolhesse. Ele não era capaz de me dar nada disso. Nem foi capaz desde o começo. E, para ser honesta... Ele nem era a pessoa que, supostamente, deveria me dar essas coisas em primeiro lugar.

O alívio começou no dia em que parei de perguntar: "Por que o meu desejo por ele ainda não diminuiu?" E comecei a perguntar: "O que eu realmente perdi? "A paz. O amor. É a sensação de ser uma pessoa escolhida, contente e segura. E quando nomeei essas coisas pelo seu nome verdadeiro, percebi que ele nunca foi a fonte de nenhuma delas. Ele era apenas o lugar onde eu estava pendurada na minha busca por elas. E no dia em que parei de procurá-las nele... Comecei a encontrá-las dentro de mim. A descoberta do amor-próprio é o melhor presente que a vida te oferece.


ANA GUEDES

Salvador, 02.07.2026

Esse texto é uma forma de descrever a dor de um término, mas também procura relatar o processo de cura, superação e autodescoberta.



 
 
 

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